Saiba mais sobre os princípios básicos da interferência da acidez do solo nas lavouras

acidez do solo
O conhecimento sobre o solo a ser cultivado e a sua acidez são essenciais para que qualquer cultura germine, cresça saudável e traga bons resultados.

 

Antes de mais nada: o que é a acidez do solo?

Em um mundo que se tornou exigente com relação a sustentabilidade, a agricultura precisa estar atenta e buscar seguir esses princípios de modo que exerça seu papel de forma eficiente e participativa.

A fertilidade do solo deve ser uma premissa em qualquer lavoura, e para isso um dos fatores principais a se atentar está diretamente ligado a acidez do solo, para que possamos ter um solo produtivo a longo prazo.

Antes de entendermos exatamente o que é a acidez do solo, e por que ela tem tanto impacto sobre qualquer plantação, desde os jardins domésticos até às grandes lavouras, precisamos saber um pouco sobre o pH. A partir daí fica muito mais fácil conhecer a grande interferência causada pela acidez do solo nos resultados de qualquer plantio.

De forma simplificada, pH é uma representação feita através de uma escala, determinando que qualquer solução neutra é igual a sete. Ou seja, numa escala menor que sete temos uma solução ácida e maior que isso uma solução básica.

Veja no esquema abaixo:

escala de ph
Escala de pH responsável por determinar a acidez do solo (Fonte: InCeres)

O conhecimento sobre o solo a ser cultivado e a sua acidez são essenciais para que qualquer cultura germine, cresça saudável e traga bons resultados.

Para se ter uma noção do impacto que acidez do solo pode causar em uma lavoura, podemos citar como exemplo a recente divulgação de dados do Programa Estadual de Correção de Acidez do Solo, do qual participaram 15 propriedades no Rio Grande do Sul.

Os dados divulgados pelo pesquisador da Fepagro, André Dabdab Abichequer, e pelo engenheiro agrônomo Rivaldo Dheim, da Secretaria Estadual de Agricultura, Pecuária e Irrigação, apontam que houve um aumento de rendimentos de 50% nas lavouras de milho dos participantes.

Em números mais exatos não estamos falando de pouca coisa. No ano anterior, os agricultores tinham colhido em média 3.861 KG/ha, após o programa de controle de acidez de solo, a colheita aumentou para 5.671 KG/ha.

Os dados foram divulgados no 31º Congresso Nacional do Milho e Sorgo.

No Brasil temos um clima tropical, o que resulta em uma reação de solo na maioria das vezes ácida, por conter altos índices de alumínio, ferro e manganês. Para a produção nesse tipo de solo é necessário que seja realizada a correção através da calagem, que é a forma mais simples de se conseguir um solo menos ácido.

inceres gráficos
Disponibilidade de nutrientes de acordo com o pH.

Lembrando que as necessidades referentes à acidez do solo sofrem variações de acordo com os cultivos que serão plantadas.

 

Alguns exemplos da faixa do pH para lavouras específicas:

  • Milho – 5,5 a 6,5
  • Soja – 5,5 a 6,5
  • Trigo – 5,5 a 6,5
  • Algodão – 5,5 a 6,5
  • Arroz – 5,5 a 6,5
  • Feijão – 6,5 e 7

 

Quais os fatores causadores da acidez do solo?

Não é possível determinar um fator principal para essa reação uma vez que existem muitas variáveis capazes de tornar os solos mais ácidos.

A reação ácida do solo pode ocorrer de forma natural através do tempo, em decorrência da falta de alguns materiais bases em sua origem, possibilitado assim a substituição por íons de hidrogênio.

Pode ser causada também pelos fatores de manejo, sofrendo interferência através das culturas, adubação nitrogenada, decomposição da matéria orgânica, plantio direto e erosão.

Processos de formação possuem potencial para tornarem mais fáceis a remoção de elementos básicos, como cálcio, sódio, potássio e magnésio, acontecimentos que também contribuem com a acidez do solo.

Até alguns fertilizantes são capazes de alterar o solo e torná-los mais ácidos.

 

E como a calagem age para corrigir a acidez do solo?

dúvida

Tida como a maneira mais prática para reverter a acidez do solo, a calagem consiste na aplicação de calcário no solo, que por sua vez, reage com o solo na presença de umidade.

No entanto, para que se faça uma boa calagem do solo precisamos observar alguns pontos importantes antes de decidir como realizar este processo.

Tradicionalmente a calagem é realizada com a definição de uma dosagem média a ser aplicada em uma área em questão, essa dose é calculada em função dos resultados de análise de solo, realizada previamente, tendo como ponto de partida a amostragem de solo.

Por outro lado, vários estudos e pesquisas tem mostrado a necessidade de trabalhar com aplicações localizadas. A conhecida taxa fixa (dose média) desconsidera a variabilidade espacial da acidez do solo, por conta disso, é comum haver sub aplicação em algumas áreas e super aplicação em outras.

Considerando o que já foi mencionado anteriormente, que a disponibilidade de nutrientes para as culturas está condicionado ao pH do solo e que as culturas necessitam de uma faixa de pH ideal para se desenvolverem e expressar o máximo potencial produtivo, surge a necessidade de adotar técnicas que façam um diagnóstico do solo de forma a expressar essa variabilidade, bem como possibilitar aplicações localizadas, ou como tradicionalmente são chamadas, aplicações em taxa variada.

A agricultura de precisão pode ser uma aliada da calagem, para fins de redução da acidez do solo em propriedades que apresentam áreas heterogêneas no que diz respeito ao pH do solo, uma vez que seus conceitos e ferramentas ajudam na elaboração de um plano de aplicação mais eficaz, a partir da coleta adequada de amostras do solo, criação de mapas e a aplicação de calcário em taxa variável.

O calcário é obtido através da moagem da rocha calcária e tem em seu composto o carbonato de cálcio e/ou magnésio. Para fins de lavoura o recomendável é a utilização do calcário rico em ambos os materiais.

É com base nos resultados de análise do laboratório que podemos definir qual a aplicação mais adequada para correção da acidez do solo em cada cultura.

Podendo ser classificado então das seguintes maneiras:

Calcários Calcíticos: ricos na concentração de carbonato de cálcio e baixo teor de carbonato de magnésio, sua indicação é feita para terras deficientes em cálcio.

Calcário Dolomítico: esse calcário que possui uma concentração de magnésio acima de 25%, é indicado para a correção de solos com baixo teor tanto de cálcio quanto de magnésio.

É importante frisar aqui a existências de diversas formas físicas na qual podemos encontrar o calcário, sendo a mais comum e mais usada por agricultores no campo a rocha natural.

Temos também o calcário peletizado que é produzido através da ligação ou compressão das partículas finas de calcário, resultando em pelotas e grânulos grandes.

O calcário peletizado tem seu manuseio mais otimizado, uma vez que geram menos poeira, fazendo dele o mais popular em algumas situações. O ponto negativo do calcário peletizado está em seu valor elevado, resultado dos custos adicionais necessários para se alcançar a peletização.

O calcário, além de realizar a correção da acidez do solo, possibilita muitos outros benefícios para o agricultor, dos quais podemos destacar:

  • A diminuição da toxicidade do alumínio no solo;
  • Redução da fixação do fósforo, ou aumento da disponibilidade do mesmo;
  • É capaz de aumentar a disponibilidade no solo de nitrogênio, fósforo, potássio, cálcio, magnésio, enxofre e molibdênio;
  • Torna os fertilizantes mais eficientes, resultando em um menor desperdício;
  • Aumenta a imunidade das plantas, pois uma vez que entra na formação de suas células o calcário age na resistência de seus tecidos contra fatores de agressividade externa, como as pragas e os ventos;
  • Calcários ricos em magnésio, agem diretamente na formação da clorofila, fator de extrema importância para a retenção do açúcar pelas plantas, além de aumentar sua resistência a altas temperaturas;
  • Possibilita o aumento da atividade microbiana e a liberação de nutrientes no momento da decomposição de sua matéria orgânica;
  • Auxilia na melhora das propriedades físicas do solo, possibilitando uma melhor aeração e circulação da água;
  • Ajuda no desenvolvimento radicular, fazendo com que os cultivos tirem melhor proveito dos nutrientes num volume maior de solo, de modo que fiquem mais resistentes a falta de chuvas;
  • Aumenta a eficiência de alguns herbicidas;
  • Todos os fatores acima, quando somados, aumentam a produtividade, fornecem um melhor aproveitamento das culturas agrícolas e consequentemente aumentam a lucratividade do agricultor.

 

Como ter uma aplicação mais eficiente do calcário?

Muitos cuidados devem ser tomados antes do processo de calagem para que ele ocorra de maneira realmente eficiente, e para que acidez do solo não prejudique a produtividade da colheita.

Os fatores mais importantes incluem:

  • A seleção de uma fonte de calcário disponível e adequada, com a verificação da qualidade deste calcário através de análises químicas;
  • A determinação da dose a ser aplicada;
  • Correta aplicação em condições de campo.

 

Partículas no combate à acidez do solo

Ficar atento ao tamanho das partículas do calcário também é de suma importância na hora de empregar as técnicas de correção da acidez do solo. O grau de moagem determina quanto tempo será necessário para que o calcário possa reagir com o solo e efetivamente neutralizar a sua acidez.

Materiais com um grau de moagem menor devem ser preferidos caso o agricultor deseje uma interferência mais gradual e de longo prazo perante a acidez do solo.

 

PRNT

O Poder Relativo de Neutralização Total, ou como é mais conhecido o PRNT, é a combinação de dois índices, o PN (poder de neutralização) e o RE (reatividade), indispensáveis para quem busca neutralizar a acidez do solo em sua propriedade.

Esse índice é muito importante para o cálculo da dose de calcário a ser aplicada sob as condições de campo, com ele é possível descobrir quanto de calcário em porcentagem reagirá no período de três meses.

Seus valores são obtidos através de análise laboratorial. Podendo ser calculado através da seguinte fórmula:

PRNT = (PN X RE) / 100

Quanto mais baixo for o resultado do PRNT, maior deverá ser a taxa de aplicação de calcário para se obter o resultado mais eficiente no controle da acidez do solo.

 

Mais sobre o PN (Poder de Neutralização)

A determinação do Poder de Neutralização (PN) de um corretivo de acidez do solo é feita analiticamente, colocando-se uma amostra do corretivo em questão para reagir com uma quantidade determinada e sob o excesso do ácido clorídrico parcialmente diluído.

Essa prática possibilita que o corretivo seja capaz de neutralizar toda a acidez da amostra.

Em seguida é estipulado o valor do ácido em excesso e através de um cálculo de diferença encontra-se o resultado da neutralização potencial que determinado corretivo possui.

 

Mais sobre a RE (Reatividade)

A Reatividade (RE) de um corretivo diz respeito a quanto tempo ele levará para agir sobre o solo, em linhas gerais, o quão rápido ele é capaz de corrigir a acidez do solo. Estando dependente de muitos fatores, como:

  • Solo e clima: nas regiões mais quentes a reatividade costuma se dar num menor espaço de tempo, uma vez que a umidade e alta temperatura exercem papéis fundamentais no processo de correção do solo;
  • Estrutura química: bases fortes tendem a ser mais reativas que as bases mais fracas;
  • Estrutura física: quanto mais finas as partículas, mais rápido as reações necessárias para correção do solo começarão a surtir seus efeitos.

 

Gesso, funciona?

Em suas propriedades principais o gesso é um sal neutro, ou seja, não apresenta nenhum efeito direto na neutralização da acidez do solo.

Pelo menos não deveria.

Nos últimos tempos muitos pesquisadores têm mostrado que o fosfogesso, que na verdade é um subproduto da fabricação do ácido fosfórico, tem grande potencial de amenizar a acidez do subsolo, fornecendo muitos efeitos positivos para o desenvolvimento das raízes das plantas.

Essa recente aplicação é extremamente relevante em sistemas de cultivo de sequeiro, uma vez que a absorção radicular de água e nutrientes tendem a ser limitadas, e afetam o crescimento das plantas quando as raízes não se desenvolvem bem e não alcançam as camadas mais profundas do solo.

 

Ainda há muito mais a se conhecer

O conhecimento mais vasto da acidez do solo e seus impactos nas lavouras vai muito além do conteúdo desse artigo. Aqui fizemos um compilado com algumas informações básicas sobre esse tema, mas afirmamos que existe muito mais a se conhecer tanto sobre a acidez do solo, quanto das propriedades da terra de modo geral.

Lembrem-se que o sucesso de qualquer lavoura depende principalmente do solo. Afinal de contas ele está presente desde os estágios iniciais do processo de plantio até a colheita.

Fiquem atentos a isso, não deixem que descuidos referentes a acidez do solo durante o início dos trabalhos prejudiquem todo o resultado final, que é a produtividade.

 

 

Para que você possa expandir ainda mais seus conhecimentos sobre a acidez do solo, sugerimos o nosso Webinar exclusivo sobre esse tema, com a participação do professor da USP-Esalq, Dr. Rafael Otto, realizado por meio do projeto Agricultura de Precisão ao Alcance de Todos.

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